Véspera do Fim





Nota: Este conto começa com uma música. Uma melodia que segue todas as linhas escritas. Eu não consegui escrever este conto ouvindo outra coisa. E quando tentava escrever sem ouvi-la, nada saia. Esta música está intrinsecamente ligada ao conto. Durante todo ele é ela que o personagem ouve. Ela me guiava na história. Seu tom é triste, assim como a vida do personagem. Se puder, ouça-a, enquanto lê. Ela se chama Time, de Hans Zimmer. Somente o som, sem vídeo. Também no transcorrer do conto há uma sensação de pés na areia, molhados pela água do mar, que vai e vem.


Capítulo 1


Estava em pé. A imensa mesa vazia de pessoas em suas cadeiras infligia à sala uma atmosfera de consternação. Prosseguia em pé, com as mãos na mesa, meio curvado para frente, olhando os rostos invisíveis que estavam ali, vendo-o com inveja. Talvez pelo cargo, ou o dinheiro, ou a vida de regalias às quais eles mesmos não podiam nunca experimentar. Eram seus fantasmas agindo. O resto de luz do sol daquele fim de dia ainda penetrava calmo no recinto. As janelas eram imensas, no lugar de paredes havia uma bela vista do centro da cidade. Sua sombra assomava nos móveis, fragmentada. Encurvado antes, agora ereto, com as mãos nas costas, começou a andar, acariciando as cadeiras dos empregados. Havia silêncio, um silêncio externo que o incomodava, pois dentro de si havia murmurações e lamentos e desejos contidos e tudo que se quer dizer, mas nunca que é publicado no momento propício. Era como a maioria das pessoas. Quem vê um sujeito no ponto de ônibus, parado, não chega a deduzir o que aquele sujeito está pensando, ou se está pensando em algo. É um mistério que cada um carrega. A todo instante temos uma torrente de pensamentos que correm dentro da mente, quebrando diques e derrubando casas e destruindo pontes. A vida nunca cessa, apesar do silêncio. A vida daquele homem na sua sala, no alto do prédio onde trabalhava, cercado de fantasmas, mesmo aquela solidão preterida e silêncio clamoroso não eram inércia. 


Desistiu de trabalhar o resto daquele dia. Trabalhar era agora uma coisa fútil, desnecessária, prescindível. Voltou para perto de sua cadeira, que era a maior, seu paletó jazia nela, retirou-o e vestiu-o. Deixou a sala, de costas, olhando os raios do sol desprovidos de vigor, que se acabavam. Saiu. A porta do elevador se abriu, ele entrou, não havia ninguém. Há algumas horas que não havia ninguém no prédio, a não ser ele. Alguns segundos depois já estava no térreo. A porta do elevador se abriu. Com a cabeça baixa caminhou até a rua. Havia muitos carros na rua, parados, e as pessoas corriam, outras choravam, outras gritavam em cima de carros mal estacionados. Ele levantou o rosto, olhou para a esquerda, para a direita. Uma mulher passou correndo com os olhos em lágrimas, enquanto tentava puxar uma criança do chão para seu colo, talvez seu filho. As pessoas se atropelavam enquanto fugiam. Tirou o paletó e depositou-o no braço direito, calmo. Estava avesso ao que acontecia com o mundo. Foi a pé até onde morava.


Depois de algum tempo caminhando chegou em frente ao prédio. Era já noite, algo em torno das oito horas. A porta abriu-se automaticamente no momento em que ele se aproximou. Algumas pessoas passavam pelo hall do edifício e esbarravam nele bruscamente. Desesperadas portando várias malas. Os apartamentos se esvaziavam. Todos seguiam a correnteza, mas o homem nadava contra ela.


Um empregado de uniforme vermelho aproximou-se, esbaforido:
- Senhor, estão pedindo que os moradores saiam, por causa do...
- Eu sei, eu sei. Vou somente buscar uma coisa importante e já saio.
- Estão falando que nas montanhas há alguma esperança, estão todos indo para lá. 
- Isso é bom. Como estão as coisas por aqui?
- Os elevadores não estão funcionando. Os geradores estão sendo desligados.
- Então será uma bela subida até o trigésimo andar, não é mesmo?
- Sim, então, boa sorte, senhor.
- Para todos nós, meu caro, para todos nós...


O empregado de uniforme vermelho partiu, seguindo a correnteza. Todos pareciam meio loucos com o que estava para acontecer. A cidade inteira estava sendo evacuada. O homem olhou o elevador com as portas fechadas, ao lado do elevador estava a escada. Ele mirou em seguida a escada, deu um suspiro e tomou seu rumo. As luzes começavam a piscar intermitentes.


Depois de já ter caminhando por cinco andares abriu o colarinho, o suor começava a aparecer em sua testa. A escadaria estava iluminada por luzes de emergência. Enquanto ele subia várias pessoas desciam, apavoradas, com medo da morte, com suas grandes malas. O que será que levavam nelas? O que era de fato importante para que elas voltassem para ser resgatado? No oitavo andar o homem parou. Respirou. Sorveu um belo ar revigorante, passou a mão na cabeça enquanto olhava para o chão. Olhou para cima, a garganta seca, voltou a subir.


Parou novamente no décimo quinto e no vigésimo segundo andar. Era uma longa subida. Ele não pensava em descer. 
- Por que fui inventar de comprar logo o apartamento do último andar? - perguntava-se.


Talvez pela vista. Ou então pelo heliporto. A cobertura não era para qualquer um, e ele não era qualquer um. Era o presidente da maior empresa de exportação de linho do país. Não ansiava morar numa mansão. Era sozinho e não queria manter empregados. Decidiu comprar então um apartamento na área nobre da cidade. Um belo apartamento com vista para o mar. Talvez a visão para o mar é que de fato o tivesse feito decidir por morar naquele lugar. Era prático também, estava a poucas quadras da empresa. Ganhava tempo, por fim.
- Lembrei-me. O mar.


Com certeza era o mar. Longe de toda a burocracia apática na qual vivia imerso, a única coisa que de fato o acalentava, o fazia descansar, era observar o mar e suas ondas. Já havia ido à praia algumas vezes, mas fazia muito tempo. Porém o som das ondas se quebrando é algo que nunca se esquece. O mar era seu herói e seu inimigo. Sempre quando estava prestes a sair, com um copo de café nas mãos, chegava próximo à porta de vidro transparente cuja visão era uma praia imensa, de ponta a ponta, e ficava observando as ondas lambendo a areia, fechava os olhos e era então assaltado pela sensação da água gelada nos pés, como no curso do rio, passando. Abria os olhos após alguns minutos, e lá estava distante dele o mesmo mar da lembrança. Ele o chamava de Grande Rei. Depois era despertado para o pesadelo cotidiano, largava o copo de café na primeira mesa que encontrava, pegava o paletó, celular, chaves e saia do seu momento bom.


Agora não havia tempo para ir ao mar. O tempo se acabava como na contagem da ampulheta, mas não havia ninguém para virá-la. Quando o último grão alcançasse seu objetivo, não haveria mais nada. Seguia ainda para o apartamento, segurando-se no corrimão que nunca tinha fim.


Vigésimo sétimo andar. Suas pernas tremiam, sua camisa manga-longa, cujas mangas já estavam desabotoadas e dobradas até os cotovelos, estava encharcada de suor. Pensava em ir diretamente para o banheiro, tomar uma ducha daquelas. Faltava pouco. Vigésimo oitavo, vigésimo nono. Pronto! Último andar. Até que enfim, lar doce lar. 


Abriu a porta. Sua mão inconscientemente procurou o interruptor. Às vezes nos esquecemos que a falta de energia implica em um interruptor inútil. Por sorte, sala adentro, haviam umas lâmpadas de emergência acesas. Quedou-se na poltrona um pouco. Seu corpo estava totalmente espalhado comportando todas as brechas que o estofado disponibilizava. Deu um suspiro de redenção. Estava enfim no paraíso. Vinte minutos depois foi ao banheiro. Enquanto caminhava ia tirando as peças da roupa que usava. Um sapato ali, uma meia acolá, gravata, calça, camisa, etc. Seria um banho gelado, coisa com a qual não tinha lembrança de costume. Era um homem de água quente. A última vez que tomara banho gelado foi num fatídico sábado, no dia em que sua mãe morrera afogada. O pequeno Max brincava de construir castelos na praia, quando um grupo de pessoas gritou pelo salva-vidas. Seu pai notou a ausência da esposa onde outrora ela estava. E correu para o círculo de pernas trêmulas cujas mãos iam à boca, inertes. Max soltou a pazinha da mão enquanto se levantava, andou morosamente até onde as pessoas estavam. Ouviu um grito mortal do pai. Parou, começou a andar de novo, um pouco preocupado, começou a furar a barreira que o impedia de ver seus pais. Depois de alguns segundos cutucando as pessoas enquanto pedia passagem, ele via seu pai, num abraço com o cadáver da mulher que o concebera, sua mãe. Desde aquele dia Maximilian não voltou ao mar, nunca mais se banhou com a límpida água salgada e gelada do oceano. 


Ligou o chuveiro, esperou um pouco. Deixou-o ligado e foi nu até o barzinho que mantinha na sala de estar. Destacou uma garrafa de Armagnac, abriu-a com os dentes e sorveu no próprio gargalo. O líquido corria pela garganta, quente, enchendo-o de coragem. Fez cara feia. Bebeu mais uma vez. Deixou a garrafa no bar e voltou ao banheiro. Já tinha coragem o suficiente para o banho. Na escuridão do banheiro ele entrou e meteu a cabeça debaixo do chuveiro. Teve vontade de gritar, mas trocou o grito pelo riso, uma gargalhada gritante. Em seguida o choro.


Aquele choro estava guardado havia tempos, talvez décadas. Carregava uma daquelas dores que nunca se apagam, não se deletam, não se desfazem mesmo que o tempo sempre perfure a matéria. Tapou a boca. Uma luz cinzenta o fazia perceber os objetos do lugar. Ficou em silêncio, prestando atenção nas gotas da água saindo do chuveiro, batendo no seu corpo e escorregando até o chão, percebia também aquelas outras muitas gotas que não o atingiam, mas que se perdiam num espaço vazio e batendo no chão. Eram gotas que perdiam o sentido, não serviam para nada. Esticou os braços contra a parede e deixou a água correr pelas suas costas. Fechou os olhos. A água continuava a cair eternamente.


Capítulo 2


Após o banho foi ao quarto. Acendeu velas, para melhor iluminar o apartamento. Vestiu uma roupa confortável e sentou-se na poltrona. Na mesinha de centro havia um maço de cigarro e um isqueiro. Pegou-os e acendeu o cigarro. Tragou-o demoradamente, dando em seguida uma baforada quase eterna.
- E diziam que eu ia morrer de enfisema pulmonar - riu.


Depois de dois anos sem fumar, ele resolveu sentir de novo aquela sensação nos pulmões. Havia parado, mas sempre carregava um maço, para provar a si que era mais forte que o vício. Não havia nada que o impedisse de fumar. Tanto fazia dar uma tragada, seria a última mesmo. Soltava a fumaça e ficava olhando-a, estendendo-se por todos os cantos. Em seguida recomeçou o choro. 


Não sei exatamente porque chorava. Além disso eu não posso saber, apesar de ser onisciente eu deixei este espaço para ele, para que sua privacidade pudesse ser mantida. Ele chorava como criança quando a mãe vai para algum lugar, ou como quando se perde dos pais. Era um choro angustiante, que durava minutos. Logo depois já estava em pé, buscando esquecer-se da dor através da bebida. 


Por um instante teve vontade de ir ao heliporto, mas desistiu. O helicóptero que estava lá em cima era justamente para uma fuga. Max era um homem precavido. Ainda havia tempo para fugir, mas ele queria aproveitar aqueles últimos instantes na sua solidão. Sentou-se na cadeira do bar, ao seu lado mais uma garrafa de vinho. O álcool absorvia-o. Trazia-o a uma atmosfera onírica onde ele podia rever sua mãe. 
- Mãe? É você?


Mas ela não respondia. Ele a via caminhando, de costas, na beira da praia, com um vestido branco.
- Mãe! - ele gritou.


Começou a correr na direção dela, mas quanto mais ele se aproximava, mais distante ela parecia. Havia uma névoa por cima do mar, que se aproximava da praia. A névoa rapidamente tomou corpo na praia e tomou a mãe de Max para si. Ele estava só. Sentia frio.


A madrugada passou silenciosa. Um misto de vento brando e horizonte infinito. Max acordou por volta das nove horas da manhã. Ainda tinha tempo, talvez umas duas horas. Vestiu seu melhor terno, fez o café e ficou um bom tempo na janela. Sua cabeça doía, muito disso se devia ao excesso de vinho durante a noite. 


Olhou o relógio. Onze horas. Observou o céu. Havia um lindo sol num céu azul pacífico. Parecia até uma ironia, uma zombaria celeste. Calmaria. Um silêncio consolador que seria destruído quando o meteoro alcançasse o solo. Aquela imensa bola vermelha que se aproximava rapidamente faria com que toda calma, silêncio e paz se dissipasse numa queda destruidora. O meteoro iria cair dali a pouco tempo. Ele admirava-o. Não o odiava, não o temia. A vida tem destas coisas mesmo. Às vezes só o que queremos é um pouco de tempo. Tempo para... para o quê mesmo? O que você faria se tivesse alguns minutos de vida? O que se faz com o tempo que antecede a morte? Gastá-lo com medo e tristeza? Empreendê-lo em agonia e pedido desesperado de piedade? Não. O tempo que restava ele iria gastar observando, admirando, desafiando aquele que em vida foi sempre seu maior inimigo: o Grande Rei. O meteoro cairia no meio do oceano Atlântico. Primeiro o impacto, seguido de um vento forte, e depois a grande onda que aniquilaria tudo. 


Ele estava ciente desde o princípio. Já chorara e sofrera bem antes deste momento. Chorar o fez no dia anterior. E já havia se esquecido das dores que teve durante sua vida, como a perda da mãe, o suicídio do pai e a desilusão amorosa por uma mulher. Estes três pilares ele tratara de destruir antes de encarar seu maior inimigo. Aquele que o guiara para as vias que o fizeram percorrer um caminho de dor e solidão. 


A imensa esfera se aproximava. Ele abriu a porta de vidro e foi para o parapeito. 


O meteoro atingiu a atmosfera. 


Uma imensa auréola se fez e desfez, como um grande anel de ouro que se abria no céu. Fez um barulho infernal quando atingiu o mar, semelhante a milhões de explosões. Um vento impetuoso atingiu toda a praia e prosseguiu pela cidade, quebrando vidraças. Ele se segurou no parapeito. Sorria. De onde estava podia ver claramente uma fumaça, primeiro amarela, depois cinza que se elevava morosa. 
- Vamos lá. Vamos lá. – disse a si mesmo todo excitado, não tinha medo, a coragem corria pelas suas veias, fazendo-o desafiar o mar.


A nuvem de fumaça começou a tomar conta de todo o céu, progredindo. No fim do horizonte uma onda gigante corria em direção à praia. Max olhou para a praia, a água voltava para o mar, fazendo a terra ficar seca. 
- Isso, garotão, vamos lá. Eu não tenho medo de você! – precisava gritar, pois a terra inteira tremia, e fazia o barulho incessante de pedras batendo.


Ele continuava gritando. O mar fazia o mesmo, trazendo para ele um vento frio. A onda media mais de um quilômetro de altura. Não havia sol, não havia paz. Havia a guerra interior de um homem consigo mesmo, querendo provar para si que não tinha mais medo de nada, nem da própria morte.


E a onda bateu no edifício. E em outros muitos, engoliu toda a praia, destruiu tudo que se apresentava em seu caminho. Visto de cima a água invadia ruas como uma multidão, corria desenfreada até somente Deus sabia onde. Max não sobreviveu, mas foi fiel ao seu pensamento em pelo menos uma vez na vida encarar algo maior que ele. Não fugiu como muitos outros fizeram, correndo para as montanhas. E se ele tivesse ido para lá, perceberia que mesmo o medo que o impeliu era inútil, pois a onda levou tudo, tudo. 


Nota Final: Após o final eu escolhi outra canção. Uma homenagem ao Max. Como quando o filme se acaba, a tela fica negra e as pequenas letras brancas sobem. Ela se chama Elephant Gun, do Beirut. Somente o som, sem vídeo




"E rasgam o silêncio, tudo que é deixado é o que eu escondo..."

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