[Conto] Meu Filho



A visão de uma mãe...



Desde que eu era criança, tinha uma imensa vontade de ser mãe. Quando brincava sozinha com minhas bonecas ou quando brincava com minhas amiguinhas, sempre querendo ser a mãe. E quando me casei não tinha outra coisa em que pensar, além do meu marido: ter um filho. Depois de dois meses de casada começaram os sintomas da gravidez. Fiz o exame e foi confirmado o que já sabia. Crescia dentro de mim o sonho que sempre alimentei.

Eu estava muito feliz. Sempre passando a mão na barriga, acariciando, contando histórias para uma pessoa que um dia sabia que iria conhecer. Uma pessoinha que previamente conheci antes mesmo de ela chegar. Depois de alguns meses soubemos o sexo: um menino. Era meu sonho se concretizando, pois já lhe tinha o nome na mente, desde sempre. Paulo. As dores também vinham me assaltar, mas não se comparavam à alegria que não conseguia traduzir. Acho que o que mais se aproxima do que existia dentro de mim era a frase “padecer no paraíso”.

Minha barriga foi crescendo. Os chutes começaram a ser freqüentes. Era sinal de vida. Uma pequena vida dentro de mim. Querendo dizer: “Estou aqui, viu?”. E como poderia esquecer? Chorei a primeira vez que eu e meu marido fizemos uma ultra-sonografia. Seu coração batendo, sua mãozinha se movimentando, seu nariz redondinho. Foi demais para mim. Eu me apaixonava por aquela criança cada dia que se passava. Esperando que ela surgisse como uma explosão.

Às vésperas do parto o obstetra me disse que havia algo errado com a criança. E com muita dificuldade ele nos contou que o bebê nasceria com um problema no cérebro. Desmaiei. Lembro-me só do médico olhando para as suas mãos, com um olhar melancólico. Depois tudo sumiu. Quando acordei estava em pânico. Querendo que o obstetra dissesse que não era verdade o que me falara. Que tinha se enganado. Talvez tivesse lido um outro prontuário que não o meu. Entretanto ele estava certo, e eu, consternada.

Quando eu e meu marido chegamos a casa, fui direto para o nosso quarto. Não havia lágrimas que externassem minha dor, por mais que gritasse nada me alentava. Por mais que batesse no meu travesseiro não conseguia retirar a densidade daquelas palavras no hospital. Como pode? Por quê? O que fiz de errado para merecer isso? Queria saber. Mas não havia ninguém que me respondesse. Só o silêncio da minha dor. Mas Paulo testemunhava tudo isso aqui dentro.

Eu estava abalada. Antes do parto o obstetra contou-nos que havia uma possibilidade da criança viver, mas seria somente de alguns dias de vida. Meu mundo se acabava. Mas eu queria ter esse filho e o amaria como nenhuma mãe jamais amou. Uma centelha de força correu pelo meu corpo todo e eu disse a mim mesma: Essa criança vai vingar.

Houve uma dificuldade na sala de parto. Paulo estava preso no cordão umbilical. E com muito custo o obstetra conseguiu retirá-lo. Subitamente um silêncio tomou conta da sala. Somente eu emitia pequenos gemidos de dor. Fazendo força. A sensação que tive a seguir foi de pura libertação. Uma liberdade incomum, nova para mim. Uma paz que excede qualquer entendimento. E em seguida um choro. Um pequeno choro vitorioso. Paulo chegara ao mundo. Chorei. Mas chorei rindo, alegre, feliz. E depois disso apaguei.

Quando voltei ao mundo me encontrava num quarto branco. Olhei para os lados, vi meu marido e meu filho, deitado num pequeno berço hospitalar. Eu agradeci a Deus. Todavia tinha ciência de que agora seria muito diferente do meu sonho. Havia surgido uma barreira que eu não imaginava quando quis ser mãe. Um empecilho estava na nossa vida. Não estou falando de Paulo, mas do mal que o havia acometido. Dessa enfermidade que agora lutaríamos contra, juntos. Com um objetivo em comum. Mesmo sabendo que não havia remédio ou antídoto que nos socorressem. Mas tinha feito um voto a mim mesma que o amaria cada dia como se fosse o último. Sem medo de me apegar, sem medo de ficar coesa ao coração daquela criança. Sem medo de dedicar o amor de mãe que sempre quis dar. E agora o sonho estava em meus braços. Ele sorria em meus braços como se me dissesse: Estou contigo, mamãe.

Paulo foi crescendo. Aparentemente saudável, sempre sorrindo. Às vezes desmaiava, chorava queixando-se de dores na cabeça, fazia coisas sem sentido. Um pouco violento e gritava sem motivo. E era nessas horas que eu o acalentava. Pegava-o no colo, abraçava-o, dizia que o amava, apertava-o contra meu peito, olhando para cima e dizendo à morte que agora não, que ela prorrogasse um pouco a despedida, que protelasse a partida. Que me deixasse amá-lo por mais um dia. E todos os dias queria amá-lo.

O médico deu um prazo de seis dias de vida. Mas esses dias foram se transformando em semanas. E essas semanas foram se transformando em meses. E esses meses em anos. Exatamente quatro anos. Foi esse o tempo determinado por Deus para que Paulo ficasse conosco. Ele teve uma convulsão, fomos ao hospital, o médico disse que a enfermidade havia piorado. O cérebro dele estava no limite da resistência. Sua mente lutava contra a doença, nunca querendo desistir, mas não havia mais forças para suportar essa peleja. E depois de escoado o último resquício de vigor, Paulo dava adeus a mim.

Quando os médicos me informaram de sua partida, eu não suportei ficar em pé. Encostei-me na parede, pus as mãos tapando a boca e comecei a chorar. Arrastando-me na parede até chegar ao chão. Minhas amigas me abraçavam, também lastimando. E fiquei lá no chão, de joelhos, em prantos. Sentindo a falta de um pedaço de mim que se desfazia.

Disse ao médico que poderia doar os órgãos dele. O médico assentiu. Pareceu-me que ele sentia um grande pesar também. Mesmo sendo o portador de tantos outros informes de mortes a outras pessoas, ele também chorava por dentro. Eu podia perceber. Disse-me que havia uma lista de espera de pessoas que necessitavam dos órgãos. Uma menina precisava de um coração. Um garoto precisava de córneas. E outros mais. Foram removidas as partes que esses pequenos precisavam. E não foram rejeitadas em seus corpos. Nenhuma parte doada fora refugada.

Meu Paulo, meu pequeno filho, mesmo depois de morto, salvava a vida de outras crianças. E depois me dei conta que ele viveria aqui na terra, pelos olhos de um rapazinho, ou amaria pelo coração de uma mocinha. Ele estaria vivo, tanto dentro de mim, quanto dentro daquelas pessoas que ele ajudou com a sua partida. Como disse não me arrependo de ter dado à luz. Nem de saber que mesmo nascendo ele teria pouco tempo de vida. Eu só tenho lembranças boas dele. E por mais que a saudade me importune, eu rememoro aquele sorrisinho angelical, aquele olhar brilhante, aquele abraçozinho apertado que ele me dava sempre que se sentia seguro perto de mim. Como que agradecendo por eu ter dado uma chance a ele. Mas na verdade foi ele que me deu a oportunidade de amá-lo.

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