[Conto] Monólogo


Nota: Trata-se de conversa entre uma personagem minha e um pequeno impulso eletromagnético. A personagem feminina narra como se a história fosse dela.




Estava sentada no meu campo meditativo, quando enfim invocaram-me para um diálogo. Era um homem de cabelos grisalhos, usava uns óculos que rejuvenesciam sua feição, beirava os trinta anos de idade. Creio que ele não sabia quem era nem onde estava. Parou à minha frente.
- Olá, por que paraste de escrever? - indagou o meu opositor.
- Porque me faltam motivos - respondi.
- Lembro-me que escrevias quando doía-te a alma.
- Decerto, todavia minha alma descansa perene no vácuo.
- Sentimos falta dos teus textos.
- Meus textos não têm nada a acrescentar. São ilusões pictóricas. São sentimentos alheios que furto de transeuntes alienados.
- Alguém específico? De quem se trata?
- Segredo. Tudo que me vem a sete chaves de forma alguma é destrancado. Sou silenciosa como a morte e confiável como uma serpente, pois mesmo o animal é mais fidedigno que o próprio homem.
- Tens acaso medo da morte?
- Já estou morta. Sabendo que não controlo meu querer já estou morta desde minha concepção. Tudo que faço tem o dedo de um ser transcendente, outrossim sendo criatura não posso me dar ao luxo de ter medo ou esperança. Sou ateia dentro do cercado que me retém.
- Do que és feita?
- Pó de estrelas.
- És mais enigmática do que supunha. Não vejo indivíduos assim cotidianamente.


Queria ter tido alguma vaga ideia do que ele objetivava. Eram perguntas aleatórias lançadas como pedras, para atinar alguma contradição em mim.


Acredito que me tenha esquecido de descrever o local onde estamos, mas isto é tão essencial quanto bacon.
- Não sou gente, sou verbo - voltei a falar-lhe. - Sou livre dentro da minha prisão, pois não podem prender pensamentos e reflexões. Sei que não sou o cotilédone do meu senhor, entretanto ele se municia de resquícios da minha vida para sobreviver.
- Como se alimenta de algo que não existe?
- Eu existo, não no plano real, mas no imaginário, que é o mais potente.
- Então pelo fato de existirmos num outro plano, sou eu também personagem? – questionou-me.
- Obviamente.
- Balela! – desacreditou.
- Sempre é um impacto para os neófitos. Logo cedo tive consciência disto, pois fui fecundada já sabendo meu destino.
- Então...também eu estou morto?
- Voltemos a mim, que é o que verdadeiramente importa.
- E eu?
- Acostuma-se, como batidas de coração. Batem e batem, às vezes esqueces que se parar de bater não restará vida em si.


O sujeito parecia amedrontado, afligia-se com o fato de não controlar suas vontades.
- És uma mentirosa - por fim desatou.
- Fraquejas, visto que estás tentando atingir a pessoa errada. Contar-te-ei uma estória, para amenizar quiçá tua dor. Não terá beleza, talvez nem encontre lógica, visto que não estou qualificada para narrações. E embora muito pouco provavelmente encontremos consolo nele, empreenderei o trajeto. Esta estória é como a confecção de um corpo. Imagine. Do coração surgem as fontes da vida. O líquido vital percorrendo a extensão do corpo por tubos chamados veias e artérias. Surgem ossos que seguram os órgãos dentro do corpo disforme. Músculos brotam, em seguida pele e pelos. Após isso está feito um homem. Todavia lhe falta um pequeno algo. Um algo aparentemente dispensável, chamado alma. A alma penetra juntas e medulas e habita o corpo humano como se uma casa fosse, introduz-se pelas narinas. Ao final de toda essa engrenagem pergunta-te: por quê? Por que conceberam de dar-me vida? Com que intuito fui gerado? Aí é como jogar pedras na água, para que ela vá o mais longe possível, entre quiques. Estás acompanhando-me?
- Um pouco complicado o que dizes, ainda não entendo.
- Deixa a estória para lá. Para tudo há um propósito. Assim como o propósito de um carro é carregar os homens para onde querem. Há propósito até em ser personagem de uma história.
- Qual será o meu?
- Isso é pessoal e intransferível. És o que és, ninguém pode sê-lo por ti. Tens de descobri-lo, se eu o fizer por ti, deixará de ter direito sobre tua vida.
- Que seja!
- Agindo sem raciocinar o que está em jogo, faz questão de perder tua arbitrariedade.
- Não sei o que quero. Talvez apenas sair daqui.
- Para quê? Para onde irás? – questionei.
- Mostra-me o caminho da saída?
- Não há saída deste mundo. Estamos sendo controlados.
- Diga o que sou!
- Já disse-te, se o fizer, serás meu. Não terás destino ou alguma vontade inibida. Serás o que eu quiser que sejas.
- Sim. – assentiu agoniado. Novatos sempre caem logo, por isso nem nome se dá a eles. Mas eu, eu tenho nome, sou Peregrina.
- Então serás um personagem meu, para um fundamento simples, um conto no qual sou a personagem principal, e tu serás o louco que não existe. És o que eu desejo. És a válvula de escape para esta conversa. Através de ti eu me criei, pois se não me perguntas, eu não estaria aqui. Então serás isto, um reles impulso, pequeno, diminuto, sem nome, um grão de sujeira. Eu continuarei sendo pó de estrelas.


Nota Final: Há pessoas que gostam de ser controladas por não saberem quem são ou o que querem, enquanto têm nas mãos o próprio destino. Mas o entrega a outros. E como eu disse, a história é minha. Espero que tenham entendido o título.

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