[Conto] Negro e Níveo
Tem muita coisa que a gente não
compreende nessa vida, talvez por isso eu quis escrever este texto. Dois
adolescentes estudavam juntos, desde tempos remotos. Não eram amigos,
mas colegas de classe, quase nunca conversavam. Ela não gostava dele
como namorado ou algo congênere. Era mais algo amistoso mesmo. Quando a
aula acabava iam juntos pelo mesmo caminho, pois moravam na mesma rua.
Creio que é o momento de dar descrições de suas aparências. Ela é uma
garota de 12 anos, com cabelos vermelhos, bem escarlate, e de olhos
azuis. Caminha devagar, pois não tem pressa de se ver livre dele, ela
gosta dele, mas como amigo, friso isso de novo para não restar dúvida.
Ele tem 14 anos, repetiu dois anos quando pequeno. Tem cabelo liso,
castanho, penteado de lado, e usa óculos. Ele é calado, introspectivo e
não liga para o que os outros dizem dele. É avesso ao mundo como se
daqui não fosse, como se fosse temporário viver neste lugar. Talvez este
fato de desimportância que ele tinha é que fizesse a garota se
interessar por ele. O garoto tinha problemas em casa que fazia com que o
mundo lá fora não oferecesse risco algum, pois o risco estava onde
dormia. Pai viciado em bebida e a mãe em jogos. Desde cedo ele percebeu
que tinha que aprender a se virar.
Ela se ofereceu para ir com ele, como fazia todo dia, pedia permissão para acompanhá-lo.
- Posso ir contigo hoje?
- Não me importo que vá.
Era por volta do meio-dia. Ela carregava os livros abraçando-os. Ele caminhava sério, olhando algo invisível no horizonte, nunca andava de cabeça baixa na rua, mas em casa sim. Carregava uma mochila nas costas, suas mãos apertavam as alças. Às vezes o cabelo caía na frente do rosto e ele o repreendia.
- Posso te perguntar uma coisa?
- Pergunte. - permitiu ele com um leve suspiro, não era cansaço, não era por causa da pergunta, era pelo fato de ter que voltar para casa.
- Por que você é assim?
- Assim como? - ele inquiriu parando e olhando para ela com as sobrancelhas cerradas.
- Assim, tão...
- Tão sozinho?
- Isso! Eu te vejo todo dia, mas nunca te vejo falando com ninguém. Não tem amigos?
- Eu quero evitar problemas, só isso. - respondeu caminhando novamente, rumo ao horizonte, onde a rua acabava numa subida, depois dali, a íngreme descida o levaria para casa mais facilmente.
- Como assim?
- Sabe eu prefiro não me envolver com ninguém. Eu vejo os outros alunos combinando de ir nas casas uns dos outros. Isso não é pra mim, por isso faço meus trabalhos sozinho.
- Se quiser eu posso fazer com você.
- É melhor não. Eu gosto de ser sozinho. Eu gosto de saber que não devo nada a ninguém, que não vou sentir dor se me magoarem. Não quero que fiquem com pena quando algo não dá certo. Eu quero viver sozinho, só isso. E carregar minhas mágoas sozinho.
- Sabe, eu gosto de você.
Ele parou de novo, mas não olhou para ela.
- O que quer dizer com isso?
- Eu gosto quando você faz aquelas apresentações na aula. Fico encantada. Você é muito inteligente.
- Acho que só você assiste. Os outros sempre ficam bocejando, ou concluindo trabalhos da aula seguinte.
- Não é pela matéria. Eu gosto do tom da sua voz. Eu gosto como você arruma os óculos para enxergar melhor, eu gosto como você se senta e dá atenção à professora. Eu gosto do seu jeito. Percebo quando entra na sala, como se prepara para a aula, como escreve. Eu vi que você faz poemas. Sobre o que são?
Ele foi pego de surpresa por aquela pergunta. Ninguém nunca havia falado dos seus poemas.
- Eu não escrevo nada, você deve estar louca.
- Louca? E o que quis dizer com "Dispo-me dos sonhos, eles nunca cobriram minha vergonha. Dispo-me da esperança, pois meu futuro é negro. Jovem ou velho não importa. Eu fui e serei, talvez, não sei" ?
Como ela sabia? Por que o havia decorado?
- Eu não sei do que você está falando. - recomeçou a andar.
- Eu sinto que algo dói em você, queria poder ajudar.
- Sabe de uma coisa, já estou arrependido de ter deixado você vir comigo. Procure outro caminho.
- Não quero. - disse ela sabendo que estava destruindo algo dentro dele.
- Então me dê licença, porque agora vou andar mais rápido.
E assim ele fez, e ela também, insistente.
- Por que você é tão cinza?
- Eu não sou cinza, garota. Só que não há nada no mundo com o que eu possa me importar. Não há nada de bom, nada de feliz, nada de sonhos. É tudo negro e doloroso. - disse ele quase chorando.
A garota não tinha reação. De repente ele começou a falar de tudo que sentia, como uma cachoeira de dor, dispensando águas amargosas à toda força. Ele se sentou no chão e limpou os olhos, desconsolado, guardando agora o precioso silêncio. Ela se curvou, com os olhos úmidos também. Levantou o queixo dele e suavemente tocou com seus lábios os lábios dele. Os olhos dele ficaram estáticos, sua boca sentia o hálito quente daquela que o beijava. Os olhos dela estavam fechados. Segundos depois ela abriu-os e se afastou, com um olhar cândido. Ele permanecia imóvel. Ela se levantou e disse:
- Te vejo amanhã na aula.
Ela se foi e deixou ele ali no chão, sem entender o que era aquilo. O que significava aquilo. Na cabeça dele nasciam centenas de perguntas cujas respostas ele não tinha, e nem queria fabricá-las. Apenas levou seus dedos à boca e sentiu o beijo da garota que sumiu na rua.
Ela se ofereceu para ir com ele, como fazia todo dia, pedia permissão para acompanhá-lo.
- Posso ir contigo hoje?
- Não me importo que vá.
Era por volta do meio-dia. Ela carregava os livros abraçando-os. Ele caminhava sério, olhando algo invisível no horizonte, nunca andava de cabeça baixa na rua, mas em casa sim. Carregava uma mochila nas costas, suas mãos apertavam as alças. Às vezes o cabelo caía na frente do rosto e ele o repreendia.
- Posso te perguntar uma coisa?
- Pergunte. - permitiu ele com um leve suspiro, não era cansaço, não era por causa da pergunta, era pelo fato de ter que voltar para casa.
- Por que você é assim?
- Assim como? - ele inquiriu parando e olhando para ela com as sobrancelhas cerradas.
- Assim, tão...
- Tão sozinho?
- Isso! Eu te vejo todo dia, mas nunca te vejo falando com ninguém. Não tem amigos?
- Eu quero evitar problemas, só isso. - respondeu caminhando novamente, rumo ao horizonte, onde a rua acabava numa subida, depois dali, a íngreme descida o levaria para casa mais facilmente.
- Como assim?
- Sabe eu prefiro não me envolver com ninguém. Eu vejo os outros alunos combinando de ir nas casas uns dos outros. Isso não é pra mim, por isso faço meus trabalhos sozinho.
- Se quiser eu posso fazer com você.
- É melhor não. Eu gosto de ser sozinho. Eu gosto de saber que não devo nada a ninguém, que não vou sentir dor se me magoarem. Não quero que fiquem com pena quando algo não dá certo. Eu quero viver sozinho, só isso. E carregar minhas mágoas sozinho.
- Sabe, eu gosto de você.
Ele parou de novo, mas não olhou para ela.
- O que quer dizer com isso?
- Eu gosto quando você faz aquelas apresentações na aula. Fico encantada. Você é muito inteligente.
- Acho que só você assiste. Os outros sempre ficam bocejando, ou concluindo trabalhos da aula seguinte.
- Não é pela matéria. Eu gosto do tom da sua voz. Eu gosto como você arruma os óculos para enxergar melhor, eu gosto como você se senta e dá atenção à professora. Eu gosto do seu jeito. Percebo quando entra na sala, como se prepara para a aula, como escreve. Eu vi que você faz poemas. Sobre o que são?
Ele foi pego de surpresa por aquela pergunta. Ninguém nunca havia falado dos seus poemas.
- Eu não escrevo nada, você deve estar louca.
- Louca? E o que quis dizer com "Dispo-me dos sonhos, eles nunca cobriram minha vergonha. Dispo-me da esperança, pois meu futuro é negro. Jovem ou velho não importa. Eu fui e serei, talvez, não sei" ?
Como ela sabia? Por que o havia decorado?
- Eu não sei do que você está falando. - recomeçou a andar.
- Eu sinto que algo dói em você, queria poder ajudar.
- Sabe de uma coisa, já estou arrependido de ter deixado você vir comigo. Procure outro caminho.
- Não quero. - disse ela sabendo que estava destruindo algo dentro dele.
- Então me dê licença, porque agora vou andar mais rápido.
E assim ele fez, e ela também, insistente.
- Por que você é tão cinza?
- Eu não sou cinza, garota. Só que não há nada no mundo com o que eu possa me importar. Não há nada de bom, nada de feliz, nada de sonhos. É tudo negro e doloroso. - disse ele quase chorando.
A garota não tinha reação. De repente ele começou a falar de tudo que sentia, como uma cachoeira de dor, dispensando águas amargosas à toda força. Ele se sentou no chão e limpou os olhos, desconsolado, guardando agora o precioso silêncio. Ela se curvou, com os olhos úmidos também. Levantou o queixo dele e suavemente tocou com seus lábios os lábios dele. Os olhos dele ficaram estáticos, sua boca sentia o hálito quente daquela que o beijava. Os olhos dela estavam fechados. Segundos depois ela abriu-os e se afastou, com um olhar cândido. Ele permanecia imóvel. Ela se levantou e disse:
- Te vejo amanhã na aula.
Ela se foi e deixou ele ali no chão, sem entender o que era aquilo. O que significava aquilo. Na cabeça dele nasciam centenas de perguntas cujas respostas ele não tinha, e nem queria fabricá-las. Apenas levou seus dedos à boca e sentiu o beijo da garota que sumiu na rua.