[Conto] Sentimentos
Capítulo 1
Minha irmã, mais velha que eu, iria se casar. Isso punha a casa em polvorosa. Minha mãe vivia descabelada, meu pai somava as dívidas que faria alugando o espaço para a festa, o aluguel do vestido de noiva, o buffet, os ternos... E nisso ninguém me percebia. O mundo naquele momento girava em torno do casamento da primogênita, Gleice. Eles todos corriam em forward, enquanto eu em slow. O que podia aproveitar como algo bom de tudo aquilo era o fato de poder andar livremente pela casa sem ter que ouvir as piadinhas sem graça que Gleice proferia. Ela não perdia a oportunidade de gracejar de mim. Riu quando fiz o bigode pela primeira vez, ou quando leu meu primeiro poema. Não era para ninguém especial, mas ela mostrou para minha mãe dizendo que eu havia feito para uma garota e que estava apaixonado. Na verdade eu fiz aquele poema para uma personagem de um livro, nada demais.
No dia do casamento...
Era uma tarde ensolarada de primavera onde pássaros cantavam e flores cresciam no seu tempo, como se nada diferente do normal estivesse acontecendo no mundo. Parentes, amigos, amigos de amigos, muita gente. A igreja estava ornamentada com os adornos que a ocasião exigia. Gleice toda de branco, como num sonho, de noiva. O noivo de branco também, só que vestido com uma roupa semelhante àquela do príncipe da Cinderela, da Disney. A cerimônia foi realizada na igreja, ao som da marcha nupcial, suspiros, choros e o palavrório decorado do padre. E até que minha irmã estava linda mesmo. Mamãe não cessava de chorar. Meu pai era mais comedido, estava era interessado se o pai do noivo iria dar uma ajudinha financeira a ele. Quem sabe? Eu estava na minha, no cantinho, observando todos. Aquilo tudo era muito chato! Queria mesmo era estar em casa. O terno que vestia me asfixiava.
Ao final do casamento, o noivo colocou a noiva nos braços e saiu da igreja jubiloso erguendo o seu troféu, aplaudido por todos. Ao chegar à porta ele a colocou no chão. Na porta um homem segurava, por uma corda, um cavalo branco. O agora meu cunhado montava no cavalo, e já em cima esticou a mão direita à minha irmã. Uma coisa que se deve saber é que meu cunhado era cavaleiro profissional. Ele disputara o último campeonato regional de equitação e, como era muito bom, ganhara. A maquiagem da Gleice estava toda borrada de tanto chorar, mas sorria. Sorria de uma felicidade que ela nunca sentira. Realizava um sonho de criança, que sempre contava para minha mãe. “Quando eu for gente grande, vou me casar como uma princesa. Meu príncipe vai me levar num cavalo branco para a nossa casa. E seremos felizes para sempre.”
Depois que eles se foram todos fomos para o lugar que meu pai reservara para os convidados. Aonde daí a pouco chegariam Sílvio, esse é o nome do noivo, agora instituído oficialmente cunhado, e Gleice. Era um casarão bonito que ficava de frente para o mar. Todos chegaram tímidos. Mas logo foram se soltando. As pessoas comiam e bebiam e riam e choravam.
Eu estava tão entediado que acabei dormindo numa cadeira de balanço. Um sono profundo. Quando acordei pensei que tinha dormido o dia inteiro. Levantei-me e fui ver lá fora como andavam as coisas. E vi minha irmã recebendo os presentes das amigas, meu cunhado ouvindo as sugestões dos amigos para a noite de núpcias. Meu pai conversando com o padre, minha mãe conversando com a mãe do genro dela. E eu... bem, como todos estavam ocupados com seus interesses, fui procurar um interesse também. Na verdade, fui andar descalço na praia. Adorava sentir a areia entre meus dedos, a brisa do mar. O sol já ia se despedindo do dia. Vagarosamente. Enquanto estava andando em sua direção podia ver as ondas do mar vindo lamber a areia da praia. Ainda hoje posso fechar os olhos e me lembrar perfeitamente do som das ondas. Um ir e vir da água em conjunto com espumas alvas, tornando úmida a terra. Fiquei olhando, imerso naquela beleza do pôr-do-sol. Parei. Estava andando tão desprendido do mundo que nem percebi que havia parado ao lado de uma garota, que estava sentada na areia fazendo o mesmo que eu. E súbito ouvi sua voz delicada:
- É lindo, não é?
- É. O pôr-do-sol é uma coisa magnífica. - disse a ela, sem tirar os olhos do poente. - Pena que nem todos são suscetíveis a este tipo de encanto. Imagina quantas pessoas passam a vida sem perceber a beleza que pequenas coisas podem oferecer.
- Nossa, que belas palavras. - ela falou olhando para mim. - Meu nome é Rebeca e o seu?
Neste momento, antes da resposta que dei a ela, tenho que dizer o que vi. Rebeca estava com um vestido branco, uma tiara da mesma cor. Os cabelos dela esvoaçavam com a brisa, e gostava de sentir isso. Ela expressava um sorriso puro, de criança que brinca. Tinha uns olhos castanhos brilhantes. Um jeito meigo, à vontade com as mãos brincando com a areia. Sentindo, tateando, entregando-se ao friozinho que a terra lhe proporcionava. Ela era de uma beleza singular, como uma rosa rubra se apresentando à primavera, almejando um louvor que ela sabia merecer, pois era algo automático ser bela. Parecia um anjo.
- É que a beleza me inspira. - disse olhando para ela, mas senti um pejo e desviei meu olhar para o fim do mar. - Meu nome é Pedro. Você veio para o casamento? - olhando de volta para ela.
- Sim. Foi lindo e romântico.
Como ela era linda, uma verdadeira musa. E estava conversando comigo, no fim do dia. Sentei-me na areia, ao seu lado, e ficamos ali conversando, conhecendo um ao outro ao som das ondas. Para minha surpresa era dia de lua cheia. Parecia até coisa de filme, mas não era. Uma grande lua iluminava a praia. Atrás de nós a festa do casamento, todos bebendo, dançando, comemorando. E nós no oposto. No silêncio dos outros, quietos, conversando. Disse-me que viera a pedido de uma amiga da irmã de uma amiga da Gleice. E eu disse quem era: o irmão da noiva.
- Bem, desculpe ter chegado sem convite. É que minhas amigas disseram que não haveria problema e...
- Calma, calma, não vim te prender. Mas estou gostando de estar com você aqui. Normalmente não sou de conversas. As pessoas me excluem, sem me conhecer.
- Que besteira delas. Você é tão agradável. Os garotos não têm papos assim. Você é sensível.
- Espero que com esse seu “sensível” você não esteja me confundindo.
- Não, não. Quis dizer que você me entende de uma maneira particular, sem preconceitos, sem julgamentos.
Conversamos sobre tanta coisa aquela noite que me lembro perfeitamente tudo. Falamos sobre as estrelas, o fato de que quando olhamos para o céu e observamos uma, nem sabemos se ela já deixara de existir. Pois quando uma estrela morre o brilho dela sobrevive por muito tempo. Falamos sobre o mar, sobre a efemeridade da vida, sobre o futuro. De um futuro que nem sabíamos se aconteceria. Dos planos. Não que fôssemos segui-lo à risca, mas ter um mapa para saber onde queríamos chegar. E foi engraçado quando discordamos sobre como seria o fim do mundo. Ela dizia que seria por um mega-tsunami, eu, um meteoro. Sem bem que os dois estariam relacionados, pois se um meteoro gigante caísse na Terra, provocaria grandes tsunamis. Entretanto o tsunami dela estava ligado ao movimento das placas tectônicas. Então de alguma forma concordávamos, como o movimento do jogo de bilhar, como a terceira lei de Newton.
Ela disse que tinha um sonho de um dia morar numa cabana. Isolar-se do mundo, num lugar frio, só para poder usar a lareira. Ela até descreveu o lugar. Uma cabana no meio de um bosque, um riacho passando ao lado e um moinho também. É inverno. Lá dentro, na sala, um grande tapete, a lareira onde crepita o fogo, um bom livro na mesinha contígua e uma poltrona confortável. Sem se esquecer de uma caneca de chocolate quente. Lá fora o teto cheio de neve e os pinheiros balançando. Sozinha.
Eu ri. Contei que meu sonho era ficar numa ilha deserta com minhas coisas. Por minhas coisas entenda-se: livros, músicas e filmes. E óbvio um protetor solar. Eu faria uma casa numa árvore e me isolaria lá. Ambos tínhamos a ideia de ficar sós. Todavia a vida tem sua maneira de mudar conceitos. Muito sutil às vezes. Dizem que é obra do acaso essa alteração de percurso. Rebeca tinha um jeito singular de ver a vida e de sonhar com ela. Independente de situação financeira ou o ambiente em que vivia, ou da influência que as outras pessoas poderiam causar em si. Não. Tinha todo o seu olhar do mundo. Uma coisa tão própria que me fascinava vê-la contando seus sonhos como se fosse realizá-los de verdade, independente de tudo. Se viessem problemas, ela resolveria. Entretanto não deixaria de riscar no papel os planos que tinha para o futuro, após se tornarem reais. Ela era perfeita. Eu estava perdidamente apaixonado por ela. Meu coração ratificava isso.
Quando percebemos já era de manhã. Rebeca tinha que ir para sua casa. E eu para a minha. Nesse momento não dirigimos palavras um para o outro, mas sabíamos que era hora de se despedir. Silêncio. Tão cortante que só se ouviam as ondas.
- É, tenho que partir. Adorei conversar com você. Espero te ver de novo um dia. - Ela falou.
- Claro. Quer dizer, eu também gostei de ficar com você aqui. Eu poderia ir à sua casa e…
- Não! Lá em casa não. Vamos fazer o seguinte? Está vendo aquele mirante? - Ela apontava para o leste.
- Sim, o que tem?
- Daqui a cinco dias nos encontramos lá. Pode ser? Às 4 da tarde?
- Claro. Cinco dias. Já estou contando.
Ela se inclinou para frente, devagar. Eu também, em direção a ela. Olhamo-nos. O seu olhar era profundo e enigmático. Era lindo vê-lo com a claridade do sol. Eu podia ver um vulcão dentro deles. Fomo-nos aproximando, lentamente. Passei minha mão direita pelo rosto dela, acariciando e depois descendo para a nuca. Ela fechou os olhos, e eu também. Meu coração batia descompassadamente. Minha face ardia. Senti quando meus lábios tocaram os dela. Beijamo-nos por um longo tempo, sem pressa. Nós dois. Na praia. Só o mar como testemunha.
Abri meus olhos quando percebi que ela queria sair. Rebeca olhou para mim, sorriu o sorriso mais lindo que eu já vira, levantou-se pegando as sandálias e saiu correndo. Rindo. Fiquei observando-a correr até chegar ao casarão.
Capítulo 2
Quando chegamos em casa, eu, meu pai e minha mãe, fui correndo para o meu quarto. Eu não conseguia parar de pensar no que havia ocorrido. Parecia fantasia. Lancei-me na cama, peguei o caderno que estava na escrivaninha, uma caneta e comecei a escrever tudo o que estava sentindo. Fiquei aquele dia todinho escrevendo poemas. Escrevendo sobre o amor. Nunca havia sentido aquilo antes. Era uma chama nova que queimava dentro de mim, não aquela quase apagada que a vida crua nos dá. Mas uma chama ardente, que me consumia. A iluminar todo meu ser. Parecia anestesiado pela seta do cupido. Tão bobo e tão feliz. Eu tinha vontade de gritar, de extravasar toda a minha euforia. Como se tivesse borboletas no estômago, como se pudesse realizar tudo que desejasse. Como se pudesse tocar o céu, caso quisesse. Como se nada mais na vida importasse, a não ser estar ao lado de Rebeca. Era assim que me sentia.
Eu estava viajando nas ondas de um mar perigoso. Mas que naquele momento me parecia tranqüilo. Eu saberia mais tarde que todo lado bom tem seu oposto.
Minha mente não interrompia o ciclo criado de sempre ver o rosto dela. Onde quer que fosse, o que quer que visse. Ela sempre estava lá. Não parava de pensar na garota da praia. Poxa, era meu primeiro beijo. Tá certo que eu contava meus dezesseis anos e nunca havia beijado, mas será que é assim que as pessoas ficam com o primeiro beijo? Eu me sentia importante para alguém, e não conseguia esperar até o nosso próximo encontro. Fiquei muito inquieto. Demais. A areia da ampulheta parecia não querer descer. O tempo parecia anormal, como se o relógio corresse mais devagar. Será que o amor agia assim mesmo? Alterando toda a vida, modificando a velocidade do tempo? As coisas não eram como antes. Nem o tempo se salvou. Meus poemas tinham mais cor, mais veracidade. E o mundo havia ficado instável.
Não sabia ao certo como ela estava. Será que eu fora só mais um? Ela estaria da mesma forma que eu? Ai, meu Deus! Eu estava inseguro. Como podia meu mundo se desfazer da certeza na qual estava depositado de uma forma tão simples? Era paixão, era uma loucura, uma imprudência que eu teria que dominar, pois já estava atrapalhando meu raciocínio. Eu não deveria ceder-me todo aos sentimentos que me atacavam. Meu corpo estava em guerra. Minha razão contra meu coração. Já não sabia quem ganhava.
Minha mãe me chamava para as refeições, e quem disse que sentia fome? Ela dizia para eu apagar a luz do quarto quando era noite, e quem disse que o sono vinha? Havia momentos em que ficava deitado na cama, com os braços na nuca, pernas cruzadas, olhando o teto. Mas na verdade o teto não estava lá. Só havia uma grande tela de cinema onde podia ver o que acontecera na praia.
Capítulo 3
Os dias se passaram devagar. Eu já não me aguentava. Por fim nos encontramos no dia combinado. Conversamos, brincamos, beijamo-nos. De lá do mirante saímos para um passeio no centro da cidade. Ela parecia muito feliz, mas não falava de sua família. Evitava. Assistimos a um filme no cinema. Depois fomos ao parque, onde sentamos nos balanços e vimos o dia findar. Mas já era tarde. E logo teríamos que nos despedir.
Íamos para o ponto de ônibus. E durante a caminhada foi que aconteceu o inesperado. O momento que me castiga à noite, que me rouba os sonhos, que me tirou a vida. Estávamos passando em frente a uma padaria, quando ouvimos gritos do seu interior. Um homem saiu correndo de lá, e outro atrás gritando que o primeiro era um ladrão. Foi quando o ladrão sacou uma arma e atirou contra o homem que estava correndo atrás. Este se desviou das balas, mas não de todas. Foram cinco tiros, um pegou neste homem. Tudo foi muito rápido. Eu e Rebeca tentávamos nos esconder. Uma gritaria na rua. Crianças chorando. Outros chamando pela polícia. Eu havia ficado observando tudo que ocorria lá na frente, mas não o que estava acontecendo ao meu lado. Rebeca segurava fortemente minha mão. Ela estava caindo. Meu Deus! Ela estava sangrando! Estava pálida e o sangue escorria no chão, formando uma poça. Um dos tiros a havia atingido.
Não podia acreditar no que estava vendo. Minha doce Rebeca. Minha querida naquele estado.
- Rebeca, fala comigo! … Rebeca! … Rebecaaaaaa!!!
Ela só olhava para mim. Uma das balas havia lhe atingido o peito. Parecia sentir medo. Um olhar frio. E apertava minha mão. Eu tirava o cabelo que caía no seu rosto, chorando. Percebi que tentava me dizer alguma coisa, mas lhe faltava o ar. Ela balbuciava algo. Eu segurava seu rosto. Foi quando numa última tentativa de falar, num último lampejo de vida, ela disse:
- Te... a... mo... seja... feliz... meu...bem...
Ela falou assim e depois... depois... se foi.
Rebeca jazia no meu colo, não mais jovial, nem quente. Seu corpo já não exalava perfume nenhum. Não havia sorriso. Apenas um corpo sem vida. Um invólucro vazio.
Eu não acreditava no que havia ocorrido. Não podia ser real.
Eu chorava. Gastara todas as lágrimas que havia em meus olhos. Até secá-las. E mesmo em sequidão ainda soluçava. Meu choro representava toda consternação que sentia. Doía demais. Minha alma se lamentava. Como podia minha vida se desfazer tão repentinamente? Como podia a morte carregar de forma tão estúpida um anjo? O meu anjo. Minha querida Rebeca. Se tivéssemos pegado outro caminho. Se tivéssemos ficado no mirante. Se eu a abraçasse fazendo do meu corpo um escudo para ela naquele momento. O se não me valeria de nada. Ela já não estava no nosso reino. E não poderia fazer nada para trazê-la de volta. Perdi minha amada. Havia perdido meu tudo. Uma semana atrás não havia este buraco dentro de mim. Como fui estúpido de ter me entregado tão facilmente a ela. Mas não me arrependia de tê-la amado. Não me arrependia de sentir esse lume que denominam amor. De forma alguma. Amei Rebeca como nunca amaria mais ninguém na vida.
Não conseguia parar de pensar nela. Rebeca tinha tantos sonhos, tantos planos. Ela queria viver. Ela amava a música You Are Not Alone, do Michael Jackson. Amava aquela canção. E agora não canso de ouvi-la. Dá um aperto no peito, a vontade de chorar volta. E choro.
Depois do ocorrido veio o velório. Descobri mais tarde onde ela morava, mas não fui vê-la no caixão. Não tive coragem. Acreditava no fundo do meu ser que aquele corpo que ali estava não comportava a vida que ela havia repartido comigo. Não era Rebeca que estava ali. Ela deveria estar brincando em algum outro lugar. Em um balanço numa árvore. Lendo um livro na biblioteca. Numa cabana na montanha. Rindo.
Tentei levar minha vida de novo. Mas como era difícil. Não conseguia ir à escola. Não conseguia sair do quarto. Eu queria poder criar uma máquina do tempo para poder impedir o que ocorrera. Ah, como eu queria. Queria poder fazer o mundo girar no sentido anti-horário até àquele fatídico dia. E evitar o que aconteceu. Sentia-me tão mal comigo. Sentia-me culpado pela morte dela. Mas a morte ceifou a única parte de mim que importava. Quem vivia aqui agora era apenas uma carcaça.
Quem sabe se eu não a conhecesse, ela estaria viva? Estaria exibindo aquele sorriso perfeito que por um instante foi meu? Por muitas vezes tentei me levantar, sair de casa, voltar a estudar. Tentei. Todavia sempre me lembrava dela. Daquele vulcão no olhar.
Capítulo 4
- Pedro, acorda dorminhoco.
A voz de Gleice soava como um alerta em minha mente perturbada. Onde estava? O que havia acontecido? Por que Gleice estava usando um vestido de noiva?
- Vai perder a festa se ficar dormindo aí nessa cadeira. - Ela disse.
- Mas...
Depois de passados alguns segundos percebi onde estava. Eu estava de terno, Gleice vestida de noiva. Muita gente comemorando alguma coisa. Liguei os pontos e percebi: Era o casamento da Gleice!!!
- Mas...
Subitamente fui acometido por uma onda de lembranças que me corriam na mente na velocidade da luz. Tudo, tudo veio e me deixava louco. Tudo corria velozmente. Limpei meus olhos. Molhei a cara. Belisquei-me. E me toquei. Mas ficou a pergunta: Foi tudo um sonho? Ou estou dormindo agora? Corri como louco por todos os lados procurando aquela que eu amava. Nada. E acabei indo no único lugar que tinha certeza que a encontraria: na praia.
Corri como se nada pudesse me impedir. Como se tivesse todo o fôlego do mundo. Meu coração batia querendo sair pela boca. Minhas pernas tremiam, cambaleando, mas retirava forças sabe-se lá de onde para não cair, e prosseguir. Foi quando vi a silhueta de uma pessoa na praia, sentada. Diminuí o passo. Comecei a chorar, mas um choro interno. Lembrando de tudo o que havia acontecido. De tudo que tinha vivido. Teria sido só um sonho? De qualquer forma as lembranças pareciam vívidas e reais. Cheguei perto, olhando o horizonte. Ela disse:
- É lindo, não é?
ps.:
Nunca soube dizer se essa parte final era a realidade ou um sonho do Pedro...
Minha irmã, mais velha que eu, iria se casar. Isso punha a casa em polvorosa. Minha mãe vivia descabelada, meu pai somava as dívidas que faria alugando o espaço para a festa, o aluguel do vestido de noiva, o buffet, os ternos... E nisso ninguém me percebia. O mundo naquele momento girava em torno do casamento da primogênita, Gleice. Eles todos corriam em forward, enquanto eu em slow. O que podia aproveitar como algo bom de tudo aquilo era o fato de poder andar livremente pela casa sem ter que ouvir as piadinhas sem graça que Gleice proferia. Ela não perdia a oportunidade de gracejar de mim. Riu quando fiz o bigode pela primeira vez, ou quando leu meu primeiro poema. Não era para ninguém especial, mas ela mostrou para minha mãe dizendo que eu havia feito para uma garota e que estava apaixonado. Na verdade eu fiz aquele poema para uma personagem de um livro, nada demais.
No dia do casamento...
Era uma tarde ensolarada de primavera onde pássaros cantavam e flores cresciam no seu tempo, como se nada diferente do normal estivesse acontecendo no mundo. Parentes, amigos, amigos de amigos, muita gente. A igreja estava ornamentada com os adornos que a ocasião exigia. Gleice toda de branco, como num sonho, de noiva. O noivo de branco também, só que vestido com uma roupa semelhante àquela do príncipe da Cinderela, da Disney. A cerimônia foi realizada na igreja, ao som da marcha nupcial, suspiros, choros e o palavrório decorado do padre. E até que minha irmã estava linda mesmo. Mamãe não cessava de chorar. Meu pai era mais comedido, estava era interessado se o pai do noivo iria dar uma ajudinha financeira a ele. Quem sabe? Eu estava na minha, no cantinho, observando todos. Aquilo tudo era muito chato! Queria mesmo era estar em casa. O terno que vestia me asfixiava.
Ao final do casamento, o noivo colocou a noiva nos braços e saiu da igreja jubiloso erguendo o seu troféu, aplaudido por todos. Ao chegar à porta ele a colocou no chão. Na porta um homem segurava, por uma corda, um cavalo branco. O agora meu cunhado montava no cavalo, e já em cima esticou a mão direita à minha irmã. Uma coisa que se deve saber é que meu cunhado era cavaleiro profissional. Ele disputara o último campeonato regional de equitação e, como era muito bom, ganhara. A maquiagem da Gleice estava toda borrada de tanto chorar, mas sorria. Sorria de uma felicidade que ela nunca sentira. Realizava um sonho de criança, que sempre contava para minha mãe. “Quando eu for gente grande, vou me casar como uma princesa. Meu príncipe vai me levar num cavalo branco para a nossa casa. E seremos felizes para sempre.”
Depois que eles se foram todos fomos para o lugar que meu pai reservara para os convidados. Aonde daí a pouco chegariam Sílvio, esse é o nome do noivo, agora instituído oficialmente cunhado, e Gleice. Era um casarão bonito que ficava de frente para o mar. Todos chegaram tímidos. Mas logo foram se soltando. As pessoas comiam e bebiam e riam e choravam.
Eu estava tão entediado que acabei dormindo numa cadeira de balanço. Um sono profundo. Quando acordei pensei que tinha dormido o dia inteiro. Levantei-me e fui ver lá fora como andavam as coisas. E vi minha irmã recebendo os presentes das amigas, meu cunhado ouvindo as sugestões dos amigos para a noite de núpcias. Meu pai conversando com o padre, minha mãe conversando com a mãe do genro dela. E eu... bem, como todos estavam ocupados com seus interesses, fui procurar um interesse também. Na verdade, fui andar descalço na praia. Adorava sentir a areia entre meus dedos, a brisa do mar. O sol já ia se despedindo do dia. Vagarosamente. Enquanto estava andando em sua direção podia ver as ondas do mar vindo lamber a areia da praia. Ainda hoje posso fechar os olhos e me lembrar perfeitamente do som das ondas. Um ir e vir da água em conjunto com espumas alvas, tornando úmida a terra. Fiquei olhando, imerso naquela beleza do pôr-do-sol. Parei. Estava andando tão desprendido do mundo que nem percebi que havia parado ao lado de uma garota, que estava sentada na areia fazendo o mesmo que eu. E súbito ouvi sua voz delicada:
- É lindo, não é?
- É. O pôr-do-sol é uma coisa magnífica. - disse a ela, sem tirar os olhos do poente. - Pena que nem todos são suscetíveis a este tipo de encanto. Imagina quantas pessoas passam a vida sem perceber a beleza que pequenas coisas podem oferecer.
- Nossa, que belas palavras. - ela falou olhando para mim. - Meu nome é Rebeca e o seu?
Neste momento, antes da resposta que dei a ela, tenho que dizer o que vi. Rebeca estava com um vestido branco, uma tiara da mesma cor. Os cabelos dela esvoaçavam com a brisa, e gostava de sentir isso. Ela expressava um sorriso puro, de criança que brinca. Tinha uns olhos castanhos brilhantes. Um jeito meigo, à vontade com as mãos brincando com a areia. Sentindo, tateando, entregando-se ao friozinho que a terra lhe proporcionava. Ela era de uma beleza singular, como uma rosa rubra se apresentando à primavera, almejando um louvor que ela sabia merecer, pois era algo automático ser bela. Parecia um anjo.
- É que a beleza me inspira. - disse olhando para ela, mas senti um pejo e desviei meu olhar para o fim do mar. - Meu nome é Pedro. Você veio para o casamento? - olhando de volta para ela.
- Sim. Foi lindo e romântico.
Como ela era linda, uma verdadeira musa. E estava conversando comigo, no fim do dia. Sentei-me na areia, ao seu lado, e ficamos ali conversando, conhecendo um ao outro ao som das ondas. Para minha surpresa era dia de lua cheia. Parecia até coisa de filme, mas não era. Uma grande lua iluminava a praia. Atrás de nós a festa do casamento, todos bebendo, dançando, comemorando. E nós no oposto. No silêncio dos outros, quietos, conversando. Disse-me que viera a pedido de uma amiga da irmã de uma amiga da Gleice. E eu disse quem era: o irmão da noiva.
- Bem, desculpe ter chegado sem convite. É que minhas amigas disseram que não haveria problema e...
- Calma, calma, não vim te prender. Mas estou gostando de estar com você aqui. Normalmente não sou de conversas. As pessoas me excluem, sem me conhecer.
- Que besteira delas. Você é tão agradável. Os garotos não têm papos assim. Você é sensível.
- Espero que com esse seu “sensível” você não esteja me confundindo.
- Não, não. Quis dizer que você me entende de uma maneira particular, sem preconceitos, sem julgamentos.
Conversamos sobre tanta coisa aquela noite que me lembro perfeitamente tudo. Falamos sobre as estrelas, o fato de que quando olhamos para o céu e observamos uma, nem sabemos se ela já deixara de existir. Pois quando uma estrela morre o brilho dela sobrevive por muito tempo. Falamos sobre o mar, sobre a efemeridade da vida, sobre o futuro. De um futuro que nem sabíamos se aconteceria. Dos planos. Não que fôssemos segui-lo à risca, mas ter um mapa para saber onde queríamos chegar. E foi engraçado quando discordamos sobre como seria o fim do mundo. Ela dizia que seria por um mega-tsunami, eu, um meteoro. Sem bem que os dois estariam relacionados, pois se um meteoro gigante caísse na Terra, provocaria grandes tsunamis. Entretanto o tsunami dela estava ligado ao movimento das placas tectônicas. Então de alguma forma concordávamos, como o movimento do jogo de bilhar, como a terceira lei de Newton.
Ela disse que tinha um sonho de um dia morar numa cabana. Isolar-se do mundo, num lugar frio, só para poder usar a lareira. Ela até descreveu o lugar. Uma cabana no meio de um bosque, um riacho passando ao lado e um moinho também. É inverno. Lá dentro, na sala, um grande tapete, a lareira onde crepita o fogo, um bom livro na mesinha contígua e uma poltrona confortável. Sem se esquecer de uma caneca de chocolate quente. Lá fora o teto cheio de neve e os pinheiros balançando. Sozinha.
Eu ri. Contei que meu sonho era ficar numa ilha deserta com minhas coisas. Por minhas coisas entenda-se: livros, músicas e filmes. E óbvio um protetor solar. Eu faria uma casa numa árvore e me isolaria lá. Ambos tínhamos a ideia de ficar sós. Todavia a vida tem sua maneira de mudar conceitos. Muito sutil às vezes. Dizem que é obra do acaso essa alteração de percurso. Rebeca tinha um jeito singular de ver a vida e de sonhar com ela. Independente de situação financeira ou o ambiente em que vivia, ou da influência que as outras pessoas poderiam causar em si. Não. Tinha todo o seu olhar do mundo. Uma coisa tão própria que me fascinava vê-la contando seus sonhos como se fosse realizá-los de verdade, independente de tudo. Se viessem problemas, ela resolveria. Entretanto não deixaria de riscar no papel os planos que tinha para o futuro, após se tornarem reais. Ela era perfeita. Eu estava perdidamente apaixonado por ela. Meu coração ratificava isso.
Quando percebemos já era de manhã. Rebeca tinha que ir para sua casa. E eu para a minha. Nesse momento não dirigimos palavras um para o outro, mas sabíamos que era hora de se despedir. Silêncio. Tão cortante que só se ouviam as ondas.
- É, tenho que partir. Adorei conversar com você. Espero te ver de novo um dia. - Ela falou.
- Claro. Quer dizer, eu também gostei de ficar com você aqui. Eu poderia ir à sua casa e…
- Não! Lá em casa não. Vamos fazer o seguinte? Está vendo aquele mirante? - Ela apontava para o leste.
- Sim, o que tem?
- Daqui a cinco dias nos encontramos lá. Pode ser? Às 4 da tarde?
- Claro. Cinco dias. Já estou contando.
Ela se inclinou para frente, devagar. Eu também, em direção a ela. Olhamo-nos. O seu olhar era profundo e enigmático. Era lindo vê-lo com a claridade do sol. Eu podia ver um vulcão dentro deles. Fomo-nos aproximando, lentamente. Passei minha mão direita pelo rosto dela, acariciando e depois descendo para a nuca. Ela fechou os olhos, e eu também. Meu coração batia descompassadamente. Minha face ardia. Senti quando meus lábios tocaram os dela. Beijamo-nos por um longo tempo, sem pressa. Nós dois. Na praia. Só o mar como testemunha.
Abri meus olhos quando percebi que ela queria sair. Rebeca olhou para mim, sorriu o sorriso mais lindo que eu já vira, levantou-se pegando as sandálias e saiu correndo. Rindo. Fiquei observando-a correr até chegar ao casarão.
Capítulo 2
Quando chegamos em casa, eu, meu pai e minha mãe, fui correndo para o meu quarto. Eu não conseguia parar de pensar no que havia ocorrido. Parecia fantasia. Lancei-me na cama, peguei o caderno que estava na escrivaninha, uma caneta e comecei a escrever tudo o que estava sentindo. Fiquei aquele dia todinho escrevendo poemas. Escrevendo sobre o amor. Nunca havia sentido aquilo antes. Era uma chama nova que queimava dentro de mim, não aquela quase apagada que a vida crua nos dá. Mas uma chama ardente, que me consumia. A iluminar todo meu ser. Parecia anestesiado pela seta do cupido. Tão bobo e tão feliz. Eu tinha vontade de gritar, de extravasar toda a minha euforia. Como se tivesse borboletas no estômago, como se pudesse realizar tudo que desejasse. Como se pudesse tocar o céu, caso quisesse. Como se nada mais na vida importasse, a não ser estar ao lado de Rebeca. Era assim que me sentia.
Eu estava viajando nas ondas de um mar perigoso. Mas que naquele momento me parecia tranqüilo. Eu saberia mais tarde que todo lado bom tem seu oposto.
Minha mente não interrompia o ciclo criado de sempre ver o rosto dela. Onde quer que fosse, o que quer que visse. Ela sempre estava lá. Não parava de pensar na garota da praia. Poxa, era meu primeiro beijo. Tá certo que eu contava meus dezesseis anos e nunca havia beijado, mas será que é assim que as pessoas ficam com o primeiro beijo? Eu me sentia importante para alguém, e não conseguia esperar até o nosso próximo encontro. Fiquei muito inquieto. Demais. A areia da ampulheta parecia não querer descer. O tempo parecia anormal, como se o relógio corresse mais devagar. Será que o amor agia assim mesmo? Alterando toda a vida, modificando a velocidade do tempo? As coisas não eram como antes. Nem o tempo se salvou. Meus poemas tinham mais cor, mais veracidade. E o mundo havia ficado instável.
Não sabia ao certo como ela estava. Será que eu fora só mais um? Ela estaria da mesma forma que eu? Ai, meu Deus! Eu estava inseguro. Como podia meu mundo se desfazer da certeza na qual estava depositado de uma forma tão simples? Era paixão, era uma loucura, uma imprudência que eu teria que dominar, pois já estava atrapalhando meu raciocínio. Eu não deveria ceder-me todo aos sentimentos que me atacavam. Meu corpo estava em guerra. Minha razão contra meu coração. Já não sabia quem ganhava.
Minha mãe me chamava para as refeições, e quem disse que sentia fome? Ela dizia para eu apagar a luz do quarto quando era noite, e quem disse que o sono vinha? Havia momentos em que ficava deitado na cama, com os braços na nuca, pernas cruzadas, olhando o teto. Mas na verdade o teto não estava lá. Só havia uma grande tela de cinema onde podia ver o que acontecera na praia.
Capítulo 3
Os dias se passaram devagar. Eu já não me aguentava. Por fim nos encontramos no dia combinado. Conversamos, brincamos, beijamo-nos. De lá do mirante saímos para um passeio no centro da cidade. Ela parecia muito feliz, mas não falava de sua família. Evitava. Assistimos a um filme no cinema. Depois fomos ao parque, onde sentamos nos balanços e vimos o dia findar. Mas já era tarde. E logo teríamos que nos despedir.
Íamos para o ponto de ônibus. E durante a caminhada foi que aconteceu o inesperado. O momento que me castiga à noite, que me rouba os sonhos, que me tirou a vida. Estávamos passando em frente a uma padaria, quando ouvimos gritos do seu interior. Um homem saiu correndo de lá, e outro atrás gritando que o primeiro era um ladrão. Foi quando o ladrão sacou uma arma e atirou contra o homem que estava correndo atrás. Este se desviou das balas, mas não de todas. Foram cinco tiros, um pegou neste homem. Tudo foi muito rápido. Eu e Rebeca tentávamos nos esconder. Uma gritaria na rua. Crianças chorando. Outros chamando pela polícia. Eu havia ficado observando tudo que ocorria lá na frente, mas não o que estava acontecendo ao meu lado. Rebeca segurava fortemente minha mão. Ela estava caindo. Meu Deus! Ela estava sangrando! Estava pálida e o sangue escorria no chão, formando uma poça. Um dos tiros a havia atingido.
Não podia acreditar no que estava vendo. Minha doce Rebeca. Minha querida naquele estado.
- Rebeca, fala comigo! … Rebeca! … Rebecaaaaaa!!!
Ela só olhava para mim. Uma das balas havia lhe atingido o peito. Parecia sentir medo. Um olhar frio. E apertava minha mão. Eu tirava o cabelo que caía no seu rosto, chorando. Percebi que tentava me dizer alguma coisa, mas lhe faltava o ar. Ela balbuciava algo. Eu segurava seu rosto. Foi quando numa última tentativa de falar, num último lampejo de vida, ela disse:
- Te... a... mo... seja... feliz... meu...bem...
Ela falou assim e depois... depois... se foi.
Rebeca jazia no meu colo, não mais jovial, nem quente. Seu corpo já não exalava perfume nenhum. Não havia sorriso. Apenas um corpo sem vida. Um invólucro vazio.
Eu não acreditava no que havia ocorrido. Não podia ser real.
Eu chorava. Gastara todas as lágrimas que havia em meus olhos. Até secá-las. E mesmo em sequidão ainda soluçava. Meu choro representava toda consternação que sentia. Doía demais. Minha alma se lamentava. Como podia minha vida se desfazer tão repentinamente? Como podia a morte carregar de forma tão estúpida um anjo? O meu anjo. Minha querida Rebeca. Se tivéssemos pegado outro caminho. Se tivéssemos ficado no mirante. Se eu a abraçasse fazendo do meu corpo um escudo para ela naquele momento. O se não me valeria de nada. Ela já não estava no nosso reino. E não poderia fazer nada para trazê-la de volta. Perdi minha amada. Havia perdido meu tudo. Uma semana atrás não havia este buraco dentro de mim. Como fui estúpido de ter me entregado tão facilmente a ela. Mas não me arrependia de tê-la amado. Não me arrependia de sentir esse lume que denominam amor. De forma alguma. Amei Rebeca como nunca amaria mais ninguém na vida.
Não conseguia parar de pensar nela. Rebeca tinha tantos sonhos, tantos planos. Ela queria viver. Ela amava a música You Are Not Alone, do Michael Jackson. Amava aquela canção. E agora não canso de ouvi-la. Dá um aperto no peito, a vontade de chorar volta. E choro.
Depois do ocorrido veio o velório. Descobri mais tarde onde ela morava, mas não fui vê-la no caixão. Não tive coragem. Acreditava no fundo do meu ser que aquele corpo que ali estava não comportava a vida que ela havia repartido comigo. Não era Rebeca que estava ali. Ela deveria estar brincando em algum outro lugar. Em um balanço numa árvore. Lendo um livro na biblioteca. Numa cabana na montanha. Rindo.
Tentei levar minha vida de novo. Mas como era difícil. Não conseguia ir à escola. Não conseguia sair do quarto. Eu queria poder criar uma máquina do tempo para poder impedir o que ocorrera. Ah, como eu queria. Queria poder fazer o mundo girar no sentido anti-horário até àquele fatídico dia. E evitar o que aconteceu. Sentia-me tão mal comigo. Sentia-me culpado pela morte dela. Mas a morte ceifou a única parte de mim que importava. Quem vivia aqui agora era apenas uma carcaça.
Quem sabe se eu não a conhecesse, ela estaria viva? Estaria exibindo aquele sorriso perfeito que por um instante foi meu? Por muitas vezes tentei me levantar, sair de casa, voltar a estudar. Tentei. Todavia sempre me lembrava dela. Daquele vulcão no olhar.
Capítulo 4
- Pedro, acorda dorminhoco.
A voz de Gleice soava como um alerta em minha mente perturbada. Onde estava? O que havia acontecido? Por que Gleice estava usando um vestido de noiva?
- Vai perder a festa se ficar dormindo aí nessa cadeira. - Ela disse.
- Mas...
Depois de passados alguns segundos percebi onde estava. Eu estava de terno, Gleice vestida de noiva. Muita gente comemorando alguma coisa. Liguei os pontos e percebi: Era o casamento da Gleice!!!
- Mas...
Subitamente fui acometido por uma onda de lembranças que me corriam na mente na velocidade da luz. Tudo, tudo veio e me deixava louco. Tudo corria velozmente. Limpei meus olhos. Molhei a cara. Belisquei-me. E me toquei. Mas ficou a pergunta: Foi tudo um sonho? Ou estou dormindo agora? Corri como louco por todos os lados procurando aquela que eu amava. Nada. E acabei indo no único lugar que tinha certeza que a encontraria: na praia.
Corri como se nada pudesse me impedir. Como se tivesse todo o fôlego do mundo. Meu coração batia querendo sair pela boca. Minhas pernas tremiam, cambaleando, mas retirava forças sabe-se lá de onde para não cair, e prosseguir. Foi quando vi a silhueta de uma pessoa na praia, sentada. Diminuí o passo. Comecei a chorar, mas um choro interno. Lembrando de tudo o que havia acontecido. De tudo que tinha vivido. Teria sido só um sonho? De qualquer forma as lembranças pareciam vívidas e reais. Cheguei perto, olhando o horizonte. Ela disse:
- É lindo, não é?
ps.:
Nunca soube dizer se essa parte final era a realidade ou um sonho do Pedro...

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