[Conto] X

X estava cheio de tudo, cheio de suas próprias mentiras. Não queria mais viver aquela vida com coisas que não eram reais. Não. Estava disposto a acabar com tudo, derrubar a base em que sua vida se sustentava. Havia uma guerra dentro de si, que não deixava se ouvir. Dois lados lutavam. Uma verdadeira guerra civil. De um lado, o X que queria contar toda a verdade. Contar tudo a todos, sem pensar nas consequências. Queria estar livre desse peso que há tempos carregava nas costas, sozinho. Do outro, o X que queria continuar sendo rei no mundo e plebeu em casa. Ostentar duas vidas, como um super-herói. Manter suas amizades conquistadas com seu poder. Manter a alegria, o foco, o objetivo de sempre agradar terceiros. Agradar novos amigos que nem sua parceira sabia quem eram. Ela não os conhecia.

            E agora que estava vencendo a batalha pela verdade, ela aparece. Linda como nunca. Invadindo seus sonhos, com a mesma doce voz que o cativou um dia, a mesma beleza, a mesma candura. Dez anos haviam se passado. E ele já não mais lembrava de suas feições, seu perfume, seus trejeitos. E hoje ela veio como um furacão. Como uma torrente de sentimentos escondidos que ele teimava em ocultar. Ela passara pelo seu sistema de segurança sem nem sequer despertar uma sirene. Nada. Ela fora perfeita em sua chegada. Invadira sua residência. Invadira novamente sua vida.

            X queria escondê-la bem no fundo de sua mente. Mas ela era rebelde. Ela não queria ficar presa. Era livre e assim queria continuar. Ninguém a prenderia. Ela era um sonho. E contra um sonho X não tinha controle. Ela havia dito que estava com saudades dos velhos tempos. Quando se amavam em segredo. Quando os olhares trocados eram códigos. Quando o seu olhar, o dela, o penetrava fundo na alma como uma adaga introduzida em seu coração.

            Por um tempo sua mente vacilou. X sabia que ela não era real. Não ansiava trocar sua realidade por aquele sonho. Não. X era ciente de sua condição. Sabia que não poderia mais viver aquele momento prazeroso que teve com ela um dia. Não. O tempo havia passado para os dois. E ficar remoendo o pretérito era lancinante. Ele deveria excluí-la, deletá-la.

            Por mais que tentasse, por mais que desejasse, não conseguia. Queria viver aquele minúsculo tempo. Queria sentí-la como nunca sentiu, queria beijá-la como nunca beijou, queria abraçá-la como nunca abraçou. Dizer a ela que um dia a amara a ponto de ficar doente. Queria dizer que ela o completava. Dizer a ela que ela era tudo pra ele, por um instante. Mas que esse instante havia passado.

            Depois que X a perdeu, depois que o tempo a tomara dele, X tentou se erguer, construir uma vida. Tentar viver, sem ela. E conseguiu. Por longos dez anos conseguiu sufocar a lembrança dela. Mas esta noite ela voltara para o assombrar. Com seu jeito meigo, com aqueles olhos brilhantes, com aquela voz sussurrando seu nome, não dava para esquecê-la. E esse sentimento era forte demais para uma pessoa só. Havia se casado, tido três filhos, trabalhava num lugar de causar inveja, onde recebia muitos proventos, mas não estava feliz. Enganara-se. Enganou a todos, mas não conseguia admitir que também enganara a si próprio. X ainda estava com a lembrança dela martelando na sua mente. Durante todo aquele dia, a imagem dela não se desfazia.

            Então X a si se encostou na parede: contar ou não contar. E temendo a reação de todos, temendo a raiva, a tristeza de todos aqueles que o rodeavam saber que eram fios de uma teia que ele havia criado, saber que eram personagens de um conto que ele inventara, um conto real. Ele não suportou o peso dessa responsabilidade. Desaparecera. Fugira do mundo,  assim como muitos desejam, quando estão sendo apertados pelo medo.

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